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Música Experimental é algo muito confuso. Ainda mais definir o que é de fato Experimental. Pode ser o progressivo setentista, a tropicália, o Heavy Metal do The Cream e do Led Zeppellin... enfim, pode ser muita coisa.
Mas foda mesmo é fazer música sem ser música. Hoje falarei sobre bandas e artistas que fazem não música, mas Anti-Música.
Primeiro: Que raios é "música". Algum barulho que nos faz sentir algo. É o que eu diria, e o que você dirá após ler esse texto. Mas rigorosamente falando, música é uma combinação de sons que formam notas, acordes e melodias de forma a estruturar canções. A estrutura varia, as notas variam, mas é sempre algo com melodia (mesmo aquelas coisas demoníacas que você ouve) e tal, que faz você sentir-se não ouvindo barulho. Mas indo mais longe, música é simplesmente uma sequencia de barulhos selecionados.
E Música Experimental é a música feita a partir de estruturas diferentes, explorando novos barulhos pra usar com algum objetivo específico, uma tentativa de criar algo diferente usando como base os sons. Isso na sua forma mais essencial da coisa, que é o objetivo desse texto. Não to falando de bandas que misturam estilos e tal, estou falando de coisas completamente inesperadas e inovadoras. Daí existem milhares de bandas que se pode citar, que originaram muitos dos estilos que conhecemos hoje. Mas como falar de algo que nós já conhecemos é chato, falarei de bandas que tinham uma experimentalidade tão brutal que ou criaram uma quantidade infindável de estilos, ou ficaram isoladas numa ilha de anti-musicalidade.
Anti-musicalidade sim. Ou você acha que fazer música eletrônica nos anos 50 era música? A Anti-música nada mais é que fazer tudo ao contrário. E sempre acaba abrindo os horizontes da música e criando coisas novas. Veremos casos em breve neste texto. Comentarei sobre algumas bandas que pra mim são das mais importantes nessa área. Pra começar, uma alemãzada esporrenta.
Einsturzende Neubauten
Christian Emmerich era um rapaz que não ia a escola na Berlin Ocidental dos anos 70, vivendo fora da casa dos pais e cheio de idéias. Nascido em 1959, nos 80, sob a alcunha de Blixa Bargeld, Blixa de uma marca de canetas alemã e Bargeld da palavra "dinheiro" em alemão e uma alusão ao artista dadaísta alemão Johannes Theodor Baargeld, o rapaz seria um dos fundadores do Einstürzende Neubauten, "Prédios Novos Desmoronando", uma das mais importantes bandas dadaístas da história. Dadaísmo?
Dadaísmo, como você deve lembrar da escola, era uma das vanguardas do início do século XX que pregava específicamente a arte do fazer tudo ao contrário, do fazer arte a partir do urbano e comum, e a arte do fazer arte com o nada. Os exemplos mais clássicos de Dadaísmo são a escultura "Fountain" de Marcel Duchamp (veja aqui), as técnicas de colagem e fotomontagem na pintura e a falta completa de estrutura poética na literatura. Na música, isso ecoou a criação do Noise, do Punk Rock e da música Industrial, por exemplo. O Punk herdou o minimalismo e o "do it yourself" do Dada, além da revolta urbana e o descontentamento com as instituições governantes. O Industrial teve como maiores contribuintes, justamente as bandas mais dadaístas, o Einsturzende e o Trobbing Gristtle, que falarei mais adiante.
Fazer música num contexto dadaísta não é simplesmente fazer algo diferente. O Einsturzende Neubauten usava canos, motores, serras elétricas, tubulações, materiais descartados da indústria metalúrgica, enfim, instrumentos feitos por eles próprios com materiais diversos e de escalas bizarras (alguns eram tocados por mais de uma pessoa de tão grandes), para criar sonoridades que mesclavam o barulho completo com o ritmo e a musicalidade. Além dessa parafernalha toda, ainda havia a guitarra de Blixa, como único instrumento de verdade, mas que era tocada da forma mais bizarra possível. Notas, acordes, afinações, todas jogadas pra escanteio. A guitarra ganhava o papel de ser mais um meio de fazer dissonâncias bizarras e barulhos ensurdecedores; curiosamente, raramente com distorção. As letras, esgueladas, por vezes improvisadas, falavam de vazios existênciais, do silêncio, do nada, do barulho, do medo... E o vocal de Blixa, levado ao extremo da insanidade, tornava a arte de cantar um simples gérmen da agressividade e da falta de limites das experiências vocais desse cara.
Mais tarde, a banda adicionaria o uso extensivo do baixo, criando músicas ainda mais vazias de sons mas cheias de sentimento. E isso que torna o Einsturzende algo único. Kollaps, de 1981 é o álbum de estréia que define o grupo, possuindo músicas inconfundíveis como Steh Auf Berlin, Negativ Nein e Sehnschut. É possível notar que mesmo com instrumentos tão exóticos, se acha o ritmo e a estrutura das músicas ali. Não é um samba do criolo doido de batucadas, há uma ordem e uma sequencia que não pode ser desrespeitada, de modo a criar uma sonoridade que faz loucos como eu ter até vontade de dançar. E isso tudo com um vocalista quase possuído alternando entre vocais berrados, esguelados, e vocalizações monstruosas como na sensacional Sehnschut.
No fim, Einsturzende Neubauten é, pra mim, a banda mais importante da música experimental do século XX, inconfundível, inimitável e atemporal.
Cabaret Voltaire
Se existe uma banda para qual as bandas de Industrial deveriam prestar homenagens, essa é o Cabaret Voltaire. Nos idos de 1973, três rapazes se juntaram na Inglaterra e resolveram fazer barulho. Mas não barulho como o Einsturzende fazia, dessa vez eles queriam algo mais calmo. Usando percussões e metais, o início da carreira do Cabaret é marcado por uma experimentalidade de rara união entre pura loucura e musicalidade apurada. Com um certo ar cinematográfico, a banda conseguia transmitir uma idéia de suspense, mistério, que até hoje é única.
Embora em 1983 a banda tenha resolvido se direcionar a âmbitos mais comerciais, até esse ano a coisa era a mais pura experimentalidade e o despojar de estruturas e convenções. Aqui o dadaísmo imperava mas com o auxílio de instrumentos tradicionais. E isso tornava o Cabaret Voltarei uma banda com o espírito do Avant-Garde, pois ao invés de criar toda uma nova música, expandia a própria já existente. Talvez até mesmo tenha previsto os ritmos do Synthpop oitentista desenvolvendo a musicalidade do Kraftwerk à patamares do Dada. Red Mecca de 1981 (mesmo ano do primeiro álbum do Einsturzende Neubauten, aninho bão esse hein) é o álbum que mais admiro do grupo e que resume bem a dicotomia entre utilizar instrumentos convencionais e criar toda uma musica absolutamente ímpar.
Coisa interessante é que Richard H. Kirk, membro fundador da banda, é considerado atualmente um dos mais prolíficos artistas da cena eletrônica, trabalhando em quase todas as vertentes da música eletrônica e da Dance Music. Curioso ver que um dos percussores desses estilos aderiu aos próprios e hoje vive praticamente disso, visto que o Cabaret desbandou no fim dos anos 80.
Esse é o fim da primeira parte dos textos sobre música experimental. Nos próximos, Kratwerk, Throbbing Gristle, Godflesh... aguardem!
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Loucura parte I
Postado por Forbidden às 18:19
Marcadores: -Cabaret Voltaire, -Einsturzende Neubauten, Industrial, Musica Experimental
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2 comentários:
Ta fodão, Forba. Acabei de entender o que é música experimental de uma maneira VERY compreensível.
Beijos =9
Muito bem escrito, como usual. Ainda me fez dar uma chance pro noise, que afinal, é bom.
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